Biografia


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“com olhos amenos assistir ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos olhos amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas que o tempo habilmente emprega em suas transformações”.

(Lavoura arcaica, de Raduan Nassar)

Meu nome é Lemuel Gandara e nasci na cidade de Goiânia, Goiás, em 30 de junho de 1984. Esses dados protocolares traduzem sínteses da arte que marcaria profundamente a minha trajetória. O nome veio do protagonista do livro As viagens de Gulliver, escrito por Jonathan Swift em 1726, o ano intitula a obra lançada por George Orwell em 1949 e o dia marca o meio do caminho da jornada que a Terra faz em torno do Sol, o que me lembra o poema No meio do caminho, de Drummond, publicado na edição de julho de 1928 da Revista de Antropofagia.

Saí do hospital e fui direto para Hidrolândia, cidade que fica nas mediações da capital goiana. Lá, vivi minha primeira infância entre jabuticabeiras floridas que pareciam neve sobre o cerrado, mangueiras, mexeriqueiras, tamarindeiros e ipês de toda cor. Morava na última rua asfaltada do lugar; ela era o caminho principal que chegava tanto ao cemitério quanto ao pasto da fazenda situada atrás da chácara dos meus avós. Momentos bons, vida lúdica no campo em uma cidade do interior.

Aos 6 anos de idade, entre 1989 e 1990, nos mudamos para Aparecida de Goiânia, momento que escancarou mundos hostis e a verdadeira estratificação social à qual minha família pertencia. Entre brincadeiras com os colegas de escola estadual, assistia a protestos feitos por meus vizinhos e parentes em reinvindicação a água tratada, a saneamento básico, a energia elétrica, a linha de ônibus, a asfalto. Tomava consciência que aquela “Cidade Livre”, nome do bairro, era uma ocupação onde as pessoas (o que me incluía) lutavam para sobreviver. No meio de tudo isso, escutava meus familiares comentarem sobre amigos assassinados, tráfico e corpos incinerados nas ruas.

Esse caos me fez olhar para a arte e me mudar definitivamente para ela. Fazia a faxina da casa da minha avó, o que me possibilitou juntar moedas para comprar papel A4 avulso, pincel, tinta guache e massinha para modelar. Me sentava no meio da cozinha, montava a mesa de artista e começa a pintar e modelar, as imagens mais recorrentes eram a de árvores e as esculturas eram sereias, muitas sereias. Meu pai, que também desenhava, colocava minhas pinturas em uma moldura exposta na parede da sala.

Concluí o ensino médio na mesma escola em que também participei de um grupo de teatro. No final dos 17 anos, fui trabalhar em uma papelaria, depois veio uma locadora de vídeos. Aos 23 anos, iniciei minha carreira acadêmica no curso de Letras na Universidade Federal de Goiás (UFG), onde minhas pesquisas se dedicaram ao diálogo entre Literatura e outras artes. Aos 28, comecei o Mestrado em Literatura na Universidade de Brasília (UnB), onde também concluí o doutorado. Depois dessa fase de formação, fixei moradia no Distrito Federal e também me dediquei ao ofício de professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira no Instituto Federal de Goiás.

Especificamente em 2013, voltei a criar e expor arte depois de um tempo envolvido com leituras e escritas próprias da academia. No início, foram cartazes para eventos acadêmicos, depois vieram pinturas e gravuras com ferramentas digitais e, enfim, meu primeiro filme, em 2015. Olho para essa fase e compreendo, com olhos amenos, que eu precisei me afastar da arte para redescobri-la nas minhas origens tanto a iluminada com jabuticabeiras quanto a mais sombria às margens da sociedade. Nesse itinerário íntimo, a arte foi e é minha respiração e minha libertação, ela também dinamizou visualizar minha consciência (e inconsciência) de individuo situado em um mundo de fronteiras. Desenho, ilustro, escrevo, pinto, bordo e filmo cores e sons. Me sinto provocado a enfrentar o mundo através do meu fazer de artista visual.

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